Da Magnífica Necrópole de Gizé ao Colossal Templo de Abu Simbel: Uma Viagem Fascinante pelo Egito Antigo!

01/03/2025

Quem nunca sonhou em conhecer o Egito?

Desde a escola, somos apresentados às pirâmides, aos faraós e aos enigmas de uma civilização que atravessou milênios. O Egito sempre esteve ali, quase como um cenário envolto em mistério, despertando curiosidade e fascínio em diferentes fases da vida. Mas transformar esse sonho em viagem real exige mais do que vontade, exige preparo.

Antes de embarcar, mergulhei em pesquisas. Quanto mais lia, mais contrastes surgiam. De um lado, relatos apaixonados sobre a grandiosidade dos templos, a força da história e a energia única do país. Do outro, alertas frequentes: dificuldades para obter o visto na chegada, vendedores insistentes, passeios que prometiam muito e entregavam pouco, além da onipresente expectativa de gorjetas para praticamente qualquer serviço.

Foi nesse cenário que tomei minha principal decisão: viajar com tudo organizado. Optei por um pacote fechado com uma agência especializada, apostando na tranquilidade como parte essencial da experiência. O roteiro de 8 dias incluía visto, hotéis, refeições, cruzeiro pelo Rio Nilo, voos internos e até as famosas gorjetas, um detalhe que, àquela altura, já fazia toda a diferença. Fora do pacote, apenas a passagem internacional.

Em fevereiro de 2025, finalmente chegou o momento. Saí do Brasil pelo Aeroporto de Guarulhos, com aquela mistura clássica de ansiedade e expectativa que antecede grandes viagens. Sem voos diretos para o Cairo, fiz uma escala em Roma antes de seguir rumo ao Egito e, dali em diante, o sonho começou, de fato, a ganhar forma.   


DIA 1 (17/02):

CHEGADA AO EGITO

Assim que desembarquei no Cairo, meu guia egípcio, Mário, já me aguardava com os vistos em mãos. Esse detalhe, que pode parecer simples, fez toda a diferença: passei pela imigração com rapidez e sem qualquer estresse. Logo depois, resolvi uma questão essencial para os dias seguintes: o chip de celular.

Pelas pesquisas que havia feito antes da viagem, a Vodafone aparecia como a opção mais recomendada. No entanto, Mário me alertou que, ao longo do Rio Nilo, o sinal da Orange costumava ser mais estável. Confiei em sua experiência e a escolha se mostrou acertada. Paguei US$ 25 por um chip com 30 GB de internet e não enfrentei problemas de conexão durante a viagem.

Ao sair do aeroporto, o impacto foi imediato. Buzinas constantes, trânsito intenso e uma dinâmica que parece desafiar qualquer lógica conhecida. O Cairo se apresentou sem filtros: caótico, vibrante e absolutamente único. Uma van já me aguardava, e segui direto para o hotel, em Gizé, com as primeiras impressões da cidade ainda ecoando na mente.

Fiquei hospedada no Regency Pyramids Hotel. A vista das pirâmides durante o café da manhã era, sem dúvida, um privilégio difícil de ignorar e, talvez, o grande destaque da estadia. A equipe também merece reconhecimento pelo esforço e atenção constantes, tentando contornar os diversos problemas que encontrei no quarto. Colchão deformado, água do chuveiro que não esquentava adequadamente e um sistema de aquecimento barulhento e pouco eficiente acabaram comprometendo o conforto, deixando o ambiente frio e desconfortável. O café da manhã, por sua vez, foi abaixo das expectativas, com opções bastante limitadas.

Ainda assim, depois de alguns ajustes e tentativas de adaptação, encerrei a noite pronta para o dia seguinte. Ao deixar o hotel, estava pronta para explorar o Egito além das primeiras impressões. A partir dali a viagem começava de verdade, e a sensação era clara: a aventura estava apenas começando.


DIA 2 (18/02):

PIRÂMIDES DE GIZÉ - ESFINGE - MEMPHIS - SAKKARA

Reem, minha guia no Cairo, me conduziu por uma verdadeira viagem pela história do Egito e de suas dinastias. Ao longo do tour, ela explicou em detalhes as grandiosas Pirâmides da Necrópole de GizéQuéops, também conhecida como a "Grande Pirâmide", Quéfren e Miquerinos, além da imponente Grande Esfinge, uma das construções mais emblemáticas do Egito Antigo.

O passeio durou algumas horas e, entre as pirâmides, explorei apenas o interior da menor, a de Miquerinos, cujo ingresso já estava incluído no pacote. Optei por não fazer o passeio de camelo, mas, para quem tiver interesse, o valor era de 500 EGP (libras egípcias) por hora, o equivalente a cerca de R$ 58 em fevereiro de 2025.

Antes de seguir para Memphis, fiz uma parada na Mena Papyrus, uma loja especializada em pinturas em papiro. Logo na chegada, fui recebida por uma vendedora que explicou todo o processo de fabricação das folhas, do cultivo da planta ao resultado final, proporcionando um contato direto com uma arte milenar que, até então, eu conhecia apenas de forma superficial.

Empolgada com o início da viagem, acabei comprando dois papiros: um maior por 2.560 EGP, cerca de
R$ 300, e outro menor por 600 EGP, aproximadamente R$ 70. Ambos vinham com garantia de autenticidade. No entanto, ao retornar ao Brasil, percebi que as bordas já apresentavam sinais de desgaste, com pequenas rachaduras e craquelados. Durante a própria viagem, também encontrei papiros idênticos, inclusive assinados pelo mesmo "artista", sendo vendidos em lojinhas de mercado por uma fração do valor.

A visita à Mena Papyrus valeu pela experiência e pelo contato com o processo de produção, mas, se a intenção for comprar, a dica é negociar bastante. Com o passar dos dias, fui entendendo melhor a lógica local: no Egito, oferecer cerca de um terço do valor inicial costuma ser um ponto de partida comum nas negociações.

De lá, segui para Memphis, uma cidade próxima ao Cairo e antiga capital do Egito durante o Império Antigo. Caminhar por Memphis é como percorrer um capítulo fundamental da história egípcia. No Museu ao Ar Livre, entre esculturas e vestígios monumentais, pude ver de perto a imponente estátua de
Ramsés II, um encontro silencioso, mas marcante, com a grandiosidade de um passado que ainda se faz presente.

Depois, segui em direção a Saqqara, uma das necrópoles mais importantes do Egito, localizada nos arredores de Memphis. Foi ali que visitei o complexo funerário associado ao faraó Djoser, um dos nomes mais marcantes da 3ª dinastia do Antigo Egito. A Pirâmide de Djoser, também conhecida como "Pirâmide de Degraus", chama atenção não apenas pela forma, mas pelo que representa: a primeira grande pirâmide construída no país e um ponto de virada na arquitetura funerária egípcia, concluída por volta de 2670 a.C. O projeto foi idealizado por Imhotep, sim, o mesmo Imhotep eternizado no imaginário popular pelo filme A Múmia.

Ao deixar o complexo de Djoser, mergulhei ainda mais fundo em Saqqara ao visitar uma das áreas de sepultamento mais antigas e extensas ligadas a Memphis. Entre elas, a Tumba de Kagemni, descoberta em 1843. O interior revela uma sequência de câmaras ricamente decoradas, com pinturas e inscrições surpreendentemente preservadas. As cenas retratam momentos do cotidiano: danças, pesca, caça, a engorda de aves e a apresentação de oferendas, oferecendo um retrato vivo e detalhado da vida no Egito Antigo.

Ainda em Saqqara, visitei o Complexo Funerário do rei Teti, primeiro faraó da 6ª dinastia. Originalmente, sua pirâmide seguia a forma clássica, mas o desgaste causado pela erosão ao longo dos séculos fez com que hoje ela se assemelhe mais a um grande monte de areia. Apesar disso, o interior guarda um dos elementos mais fascinantes de toda a visita: as inscrições hieroglíficas conhecidas como os "Textos das Pirâmides". Gravados nas paredes, esses textos, entre os mais antigos do Egito, tinham a função de proteger e guiar a alma do faraó em sua jornada rumo à vida após a morte.

Um detalhe que chama atenção é o teto da pirâmide, decorado com pequenas estrelas que lembram até estrelas-do-mar. Para os antigos egípcios, elas simbolizavam a ligação do faraó com o divino, ajudando-o a alcançar a imortalidade e a ascensão ao céu.

Ao deixar Saqqara, parei para almoçar em um restaurante simples, mas cheio de identidade: o El Dar Darak, em Gizé, a poucos minutos das pirâmides. Em um ambiente tradicional e acolhedor, tive uma verdadeira experiência da culinária egípcia, daquelas que aproximam a gente do cotidiano local. Fica a recomendação. 


DIA 3 (19/02):

CRUZEIRO PELO NILO (M/S Royal Adventure)

Por volta das 8h da manhã, fiz o check-out do hotel Regency e segui para o aeroporto do Cairo. De lá, embarquei rumo a Assuã, no sul do Egito, onde começaria uma das etapas mais aguardadas da viagem: um cruzeiro pelo Rio Nilo, que navegaria por três dias até Luxor.

Cheguei em Assuã por volta das 14h. Após deixar as malas no navio, aproveitei um delicioso e tranquilo almoço a bordo antes do próximo capítulo da jornada. No fim da tarde, antes mesmo de o cruzeiro iniciar oficialmente, vivi uma das experiências mais marcantes da viagem: um passeio de "Feluca", o tradicional barco à vela egípcio.

A embarcação, simples e cheia de charme, era conduzida por uma grande vela triangular que deslizava suavemente sobre o rio. Navegar pelo Nilo ao pôr do sol foi um daqueles momentos difíceis de traduzir em palavras. As águas calmas refletiam tons dourados do céu, enquanto templos, palmeiras e pequenas ilhas surgiam ao redor, revelando uma nova perspectiva desse rio lendário, tão presente na história do Egito.

Durante o passeio, duas crianças egípcias se aproximaram do barco, equilibrando-se em uma prancha improvisada. Sem remos, usavam as próprias mãos para cortar a água enquanto cantavam trechos de músicas populares, na esperança de receber alguma gratificação, e conseguiram. A cena, ao mesmo tempo curiosa e tocante, trouxe um olhar espontâneo sobre a criatividade e a leveza do cotidiano local.

De volta ao píer, aproveitei para caminhar pelo mercado de Assuã, no coração da cidade. O ambiente é vibrante, com bancas repletas de especiarias, tecidos coloridos, perfumes, lembranças típicas e tantos outros detalhes que despertam os sentidos. Diferente dos mercados mais turísticos do Cairo, ali os vendedores são menos insistentes e os preços mais acessíveis, tornando o passeio, e as compras, muito mais agradáveis.


DIA 4 (20/02):

ABU SIMBEL - PHILAE - KOM OMBO

O cruzeiro ainda estava atracado em Assuã quando, às 3h da manhã, o guia Ossama já me aguardava na recepção do navio. A madrugada silenciosa marcava o início de um dos dias mais esperados da viagem: a visita ao Templo de Abu Simbel, considerado um dos mais impressionantes do Egito.

Seguimos de ônibus por cerca de três horas, atravessando aproximadamente 300 quilômetros em meio à paisagem árida do sul do país. Como partimos antes do amanhecer, recebi uma pequena sacola com frutas, água e sanduíches, um café da manhã improvisado, consumido ainda sonolenta, enquanto o deserto começava lentamente a ganhar cor com a chegada do dia.

Abu Simbel está localizado próximo à fronteira com o Sudão e impressiona não apenas pela grandiosidade, mas também pela história que carrega. Ali, Ossama me explicou que o complexo foi construído pelo faraó Ramsés II e abriga dois templos esculpidos diretamente na rocha: o maior, dedicado ao próprio Ramsés, e o menor, à sua esposa, a rainha Nefertari, uma honra raríssima no Egito Antigo.

À medida que me aproximava, as quatro estátuas colossais de Ramsés II na fachada do templo principal dominavam completamente a paisagem. No interior, o impacto continuava. Ao caminhar até o fundo do salão principal, encontrei quatro estátuas sentadas, posicionadas de forma milimetricamente calculada. Em apenas dois dias do ano, em fevereiro e outubro, a luz do sol percorre o templo e ilumina três delas, deixando a quarta permanentemente na sombra. As figuras iluminadas representam Ramsés II e os deuses Amon (deus criador) e (deus do Sol), enquanto a estátua que permanece na escuridão simboliza Ptah, o deus da escuridão.

Há ainda um detalhe que torna Abu Simbel quase surreal: os templos não estão exatamente onde foram construídos originalmente. Na década de 1960, com a construção da Represa de Assuã e a iminente submersão da região, o complexo foi desmontado e remontado em um nível mais alto, em uma operação monumental que se tornou um marco da engenharia moderna.

Minha visita durou pouco mais de uma hora, tempo suficiente para absorver a grandiosidade e o silêncio solene do lugar. No caminho de volta, já com o sol mais alto no céu, fiz uma parada para conhecer outro templo igualmente especial: Philae, às margens do Nilo, dando continuidade a um dia intenso e memorável pelo sul do Egito.

Para explorar o Templo de Philae, carinhosamente chamado de "Joia do Nilo", embarquei em um pequeno barco, semelhante a uma catraia. O templo fica em uma ilha do Rio Nilo, nos arredores de Assuã, e só pode ser acessado pelo rio. A travessia é breve, mas suficiente para criar uma expectativa, como se o templo fosse se revelando aos poucos.

Ao desembarcar no píer, segui por um caminho que levava à entrada do complexo, passando antes por uma pequena feira repleta de souvenirs. Confesso que não resisti: acabei levando comigo uma pequena pirâmide como lembrança daquele momento.

Dedicado à deusa Ísis, divindade do amor, da magia e da fertilidade no Egito Antigo, Philae é um dos complexos religiosos mais importantes do país. Sua construção teve início durante a dinastia ptolomaica (305–30 a.C.), e o templo impressiona pelas colunas elegantemente ornamentadas e pelos relevos detalhados, que retratam cenas mitológicas e rituais ligados ao culto da deusa.

Dentro do complexo, visitei a chamada "Casa de Nascimento" (Birth House), um espaço destinado à celebração do nascimento divino de Hórus, filho de Ísis. Estruturas como essa eram comuns nos templos egípcios e simbolizavam a renovação da vida, além de reforçarem a ligação do faraó com os deuses. Outro detalhe que chamou atenção foram as cruzes entalhadas em paredes e colunas, marcas do período bizantino, quando o templo foi convertido em igreja cristã. Nessa transição, muitas representações dos deuses egípcios foram apagadas ou danificadas, sinalizando o declínio do culto tradicional a Ísis e a ascensão do cristianismo na região.

Ainda em Philae, explorei o santuário, a área mais sagrada do templo, onde eram guardadas as estátuas das divindades e realizados os rituais mais importantes. No centro desse espaço encontra-se a pedra do Naos, a base sagrada que simbolizava o local onde a deusa "residia" e o ponto focal das oferendas e cerimônias religiosas.

Assim como Abu Simbel, o Templo de Philae também precisou ser salvo das águas. Na década de 1960, com a construção da Represa de Assuã e a formação do Lago Nasser, todo o complexo foi desmontado e remontado fielmente em uma ilha próxima. Um trabalho monumental que permitiu que Philae continuasse existindo, não apenas como ruína, mas como testemunho vivo de diferentes camadas da história egípcia.

De volta ao navio, seguimos navegando pelo Nilo em direção ao Templo de Kom Ombo. Pela manhã, ainda a bordo, aproveitei com calma as refeições e os espaços de lazer do cruzeiro. A piscina no deck superior acabou virando um convite irrecusável, especialmente com a paisagem passando lentamente às margens do rio, com vilarejos, palmeiras e cenas do cotidiano que pareciam acontecer em outro ritmo.

Atracamos por volta das cinco da tarde. Encontrei Ossama na recepção do navio e, em poucos minutos de caminhada, já estávamos diante do templo. A proximidade impressiona: Kom Ombo fica a menos de cinco minutos do píer, quase como se tivesse sido construído para receber quem chega pelo Nilo.

Kom Ombo é um templo duplo, dedicado a duas divindades distintas: Sobek, o deus crocodilo, e Hórus, o deus falcão. Construído durante a dinastia ptolomaica, entre aproximadamente 180 e 47 a.C., o templo segue uma estrutura perfeitamente simétrica, com duas entradas, dois corredores e dois santuários, um para cada deus. Há também três câmaras onde, provavelmente, eram realizadas oferendas.

Em uma dessas câmaras, o teto chama atenção pela preservação. Ainda é possível ver estrelas pintadas sobre um fundo azul profundo, além de um padrão de abutres representando as deusas tutelares do Egito: Nekhbet, do Alto Egito, com a Coroa Branca, e Wadjet, do Baixo Egito, com a Coroa Vermelha. Um detalhe delicado, que contrasta com a imponência das pedras ao redor.

Outro ponto que torna Kom Ombo especialmente interessante são seus relevos detalhados e surpreendentemente bem preservados. Entre eles, há representações de instrumentos médicos e cirúrgicos (como bisturis, serras, ganchos, pinças e balanças) que revelam o nível de conhecimento da medicina na época. O templo também abriga um poço onde crocodilos sagrados mumificados eram mantidos. Alguns desses exemplares podem ser vistos hoje no Museu dos Crocodilos, localizado ao lado do templo, uma visita que realmente vale a pena.

Depois de explorar Kom Ombo com calma, retornei ao navio. Durante a madrugada, seguimos navegando pelo Nilo, agora rumo ao próximo destino da viagem: o Templo de Edfu.


DIA 5 (21/02):

TEMPLO DE EDFU

Atracamos em Edfu ainda de madrugada e, às 6h da manhã, eu já estava na fila para entrar no templo. Apesar do horário cedo, o local já estava lotado e a entrada foi bastante caótica, com grupos se formando ao mesmo tempo e pouco espaço para circular com calma.

O Templo de Edfu, dedicado ao deus Hórus, impressiona logo de início por sua fachada monumental. As colunas imponentes e os relevos detalhados retratam batalhas mitológicas e rituais religiosos, deixando clara a importância do culto ao deus falcão. Algo que me chamou especialmente a atenção foi o estado de conservação das paredes, bastante deterioradas em alguns pontos. Parte desse desgaste é resultado natural do tempo e da erosão, mas, segundo o guia, o maior impacto ocorreu após a ascensão do cristianismo, quando muitos templos foram alvo de vandalismo religioso, com inscrições e imagens propositalmente apagadas. É triste, mas também faz parte da complexa história do lugar.

No interior do templo, observei representações recorrentes da flor de lótus e da flor de papiro fechado, símbolos fundamentais na cultura egípcia. A flor de lótus, associada ao Alto Egito, representa criação, renascimento e pureza. Já o papiro fechado, símbolo do Baixo Egito, está ligado à fertilidade e à abundância proporcionada pelo Rio Nilo. Juntas, essas imagens simbolizam a união das duas regiões do Egito, um tema central na iconografia egípcia.

Seguimos então até o santuário, a área mais sagrada do templo, onde se encontra a barca cerimonial usada para transportar a estátua de Hórus durante procissões e rituais. O templo permaneceu parcialmente soterrado por séculos, o que acabou ajudando a preservar grande parte de suas inscrições e decorações. No entanto, pouco antes de chegarmos ao santuário, as luzes do templo se apagaram, o que prejudicou as fotos e filmagens desse espaço tão simbólico.

Curiosamente, à medida que a escuridão tomava conta do templo, muitos turistas começaram a se dispersar, deixando o ambiente mais silencioso e contemplativo. Não cheguei a vê-lo completamente vazio, mas nossos amigos italianos, Emanuele e Lurdiana, que entraram mais tarde, tiveram a sorte de viver essa experiência rara e puderam contemplar o templo quase em total silêncio, longe da agitação das multidões.

Depois da visita, voltei ao barco para seguir viagem. Navegar novamente pelo Nilo foi um lembrete constante do papel vital do rio na história do Egito. Suas margens verdes, repletas de árvores e plantações, contrastam fortemente com o deserto ao redor, uma paisagem que deixa claro, sem necessidade de explicações, porque o Nilo é considerado a verdadeira fonte de vida do país.

Seguimos navegando rumo à eclusa, passando primeiro pela antiga e depois pela nova. O ritmo do navio era lento, quase contemplativo, e a paisagem ao redor começava a mudar aos poucos. Próximo à região de Esna, a tranquilidade foi quebrada por uma cena inesperada e curiosa.

Pequenas embarcações surgiram ao redor do cruzeiro. Eram comerciantes locais, que se aproximavam habilmente dos navios para vender seus produtos diretamente aos passageiros. Em vez de atracar, eles utilizavam uma técnica bastante peculiar: lançavam sacolas cheias de mercadorias para os decks superiores, aguardando que escolhêssemos os itens. Se houvesse interesse, o pagamento era devolvido da mesma forma, tudo acontecendo em pleno movimento, sobre as águas do Nilo.

Entre roupas típicas egípcias, lenços, toalhas e bijuterias, o vai e vem das sacolas criava uma cena quase coreografada. Mais do que uma simples compra, aquele momento acabou se tornando parte da experiência de navegar pelo Nilo, um retrato espontâneo do cotidiano local que não aparece nos roteiros, mas fica na memória.


DIA 6 (22/02):

TEMPLO DE KARNAK - TEMPLO DE LUXOR - VALE DOS REIS - TEMPLO DE HATSHEPSUT - COLOSSOS DE MÊMNON

Atracamos cedo em Luxor e, depois do último café da manhã no navio, por volta das 5h30, deixei as malas na recepção e segui direto para o Templo de Karnak. Ainda era cedo quando cheguei. Às 6h50, já atravessava seus portões, na margem leste do Rio Nilo, com aquela sensação única de estar entrando em um lugar que atravessou milênios.

Karnak começou a ser construído por volta de 2.000 a.C., no Reino Médio, e foi ampliado por diferentes faraós ao longo de quase dois mil anos. O resultado é um complexo monumental, formado por santuários, obeliscos e, principalmente, colunas gigantescas. São 134 colunas, algumas com mais de 23 metros de altura, que criam um cenário difícil de traduzir em palavras. Caminhar entre elas é sentir-se pequeno diante da grandiosidade da história.

Logo na entrada, uma barca chama a atenção: sobre ela, um falcão sustenta um disco solar. O símbolo representa Rá, o deus supremo do sol, associado à luz, ao renascimento e à força vital que mantém a ordem do mundo. Em Karnak, um dos templos mais importantes dedicados a Amon-Rá, essa imagem reforça a jornada diária do deus sol pelo céu e sua ligação com Amon, o criador e sustentador do universo.

Mais adiante, o caminho é ladeado por fileiras de carneiros esculpidos lado a lado, cada um com uma pequena figura humana protegida entre as patas. Os carneiros simbolizam Amon, deus supremo de Tebas, associado à fertilidade e à força criadora. A figura humana representa o faraó, sob sua proteção direta. A mensagem é clara: o poder do rei vem do respaldo divino.

Karnak também fazia parte da Procissão de Opet, um importante festival anual que ligava este templo ao Templo de Luxor por meio da Avenida das Esfinges, com cerca de 2,5 quilômetros de extensão. Durante a celebração, a imagem de Amon-Rá era transportada de Karnak até Luxor. A avenida era originalmente ladeada por cerca de 1.200 esfinges, figuras com corpo de leão e cabeça humana, símbolos de proteção, poder e sabedoria. Mais do que um caminho físico, essa avenida representava uma ligação espiritual entre os dois templos.

Durante a visita, a pedido do guia, dei sete voltas ao redor do monumento do escaravelho. O gesto, simples e simbólico, é associado à boa sorte, à proteção e à renovação espiritual. Dizem que serve para transformar algo na vida de quem o realiza e, naquele cenário, o ritual ganha um significado especial.

Apesar dos danos sofridos ao longo dos séculos, Karnak permanece impressionante. Colunas, obeliscos e grandes estruturas seguem de pé, enquanto estátuas danificadas e cabeças ausentes contam, em silêncio, a história turbulenta que o templo atravessou. Caminhar por ali é perceber que, mesmo ferido pelo tempo, Karnak continua imponente, um testemunho vivo da grandiosidade do Egito Antigo.

Saí de Karnak e segui diretamente para o Templo de Luxor, também situado na margem leste do Rio Nilo. Essa margem era conhecida no Egito Antigo como a "Cidade dos Vivos", associada ao nascimento, à vida e à renovação. Já a margem oeste, a "Cidade dos Mortos", era reservada às necrópoles reais, como o Vale dos Reis e o Templo de Hatshepsut, que visitei logo depois de deixar Luxor.

O Templo de Luxor é um dos mais bem preservados e emblemáticos do Egito Antigo, dedicado ao deus Amon-Rá. Logo na entrada do complexo, uma barca cerimonial posicionada na Avenida das Esfinges anuncia o caráter sagrado do lugar. Ela remete ao Festival de Opet, uma das celebrações religiosas mais importantes do Egito, quando a imagem de Amon-Rá, acompanhada de sua esposa Mut e de seu filho Khonsu, era transportada em procissão do Templo de Karnak até Luxor, seja pela avenida, seja navegando pelo próprio Nilo.

A construção do templo teve início durante o reinado de Amenhotep III, por volta de 1390 a.C., e foi ampliada posteriormente por Ramsés II. A imponência da arquitetura se revela logo nos primeiros passos: colunas monumentais, estátuas colossais e um vasto pátio central criam uma sensação imediata de grandeza e solenidade. A entrada principal é marcada por dois obeliscos, hoje, apenas um permanece no local. O outro foi levado para Paris no século XIX e atualmente se encontra na Praça da Concórdia.

Ao avançar pelo grande pátio, observei as colunas que representam folhas de papiro fechadas, símbolo do Baixo Egito. Ainda em botão, essas folhas evocam fertilidade, prosperidade e abundância, mas também algo que está prestes a florescer, uma metáfora poderosa para a ideia de renovação contínua e potencial de crescimento.

À medida que caminhei para o interior do templo, as camadas da história ficaram ainda mais evidentes. Em algumas paredes, imagens cristãs surgem sobrepostas aos relevos egípcios originais. Figuras de santos foram pintadas ou entalhadas exatamente onde antes estavam representações de deuses do Egito Antigo. Essas marcas são vestígios do período entre os séculos IV e VI d.C., quando, com a ascensão do cristianismo, muitos templos pagãos foram transformados em igrejas. Durante esse processo, imagens antigas foram apagadas, adaptadas ou reutilizadas, numa tentativa de suprimir os cultos tradicionais e afirmar a nova fé.

Essas intervenções, embora duras do ponto de vista histórico, hoje funcionam como testemunhos silenciosos de uma profunda transição religiosa. O Templo de Luxor passou a carregar, em suas paredes, não apenas a grandiosidade do Egito Antigo, mas também as marcas de um mundo em transformação.

Curiosamente, o pátio do templo ganhou uma nova função nos tempos modernos. Hoje, ele é ocasionalmente utilizado para eventos exclusivos e desfiles de grandes grifes internacionais, criando um contraste quase surreal entre a monumentalidade milenar e o glamour contemporâneo, uma prova de que Luxor continua, de alguma forma, sendo palco de poder, espetáculo e simbolismo.

Deixei o Templo de Luxor e segui em direção ao Vale dos Reis, já na margem oeste do Rio Nilo. O trajeto de van durou cerca de 40 minutos. Para chegar até lá, atravessei a Ponte de Luxor, que liga a cidade moderna à região das antigas necrópoles, quase como uma linha invisível entre dois mundos.

Assim que cruzei para a margem oeste, a paisagem mudou por completo. O cenário urbano ficou para trás e deu lugar a uma região árida, dominada pelo deserto e por formações rochosas imponentes. Não é à toa que essa área era conhecida como a "Cidade dos Mortos". É aqui que se concentram alguns dos sítios arqueológicos mais importantes do Egito, como o Templo de Hatshepsut e os Colossos de Mêmnon.

Durante o percurso, ainda passei por pequenas vilas e faixas de vegetação próximas ao Nilo. Aos poucos, o verde foi desaparecendo, substituído pela aridez do deserto, até que surgiram as montanhas que guardam a entrada do Vale dos Reis. É entre essas rochas que os faraós do Novo Império escolheram ser sepultados, em tumbas escavadas profundamente na montanha, numa tentativa de protegê-las de saques e profanações.

Ao chegar ao Vale dos Reis, utilizei um carrinho elétrico que levava até a área das tumbas, um transporte prático e ecológico, já incluído no valor do ingresso, embora opcional. Vi muitas pessoas fazendo o trajeto a pé, numa caminhada silenciosa que parecia intensificar a conexão com o lugar. Meu ingresso dava direito à visita de três tumbas: Ramsés IIIRamsés IV Ramsés IX. Para acessar a tumba de Tutancâmon, adquiri um ingresso separado, no valor de 700 EGP, cerca de R$ 70,00.

A tumba de Tutancâmon, identificada como KV62, sigla de Kings Valley, seguida do número correspondente à sua catalogação, é uma das descobertas arqueológicas mais extraordinárias da história. Encontrada praticamente intacta em 1922 pelo arqueólogo Howard Carter, revelou ao mundo um tesouro funerário sem precedentes.

O percurso pela tumba é curto, mas carregado de significado. Ele atravessa quatro espaços principais: a antecâmara, a câmara funerária, a câmara do tesouro e um pequeno anexo. No centro da tumba está a câmara funerária, onde repousa o sarcófago que originalmente abrigava três caixões de ouro encaixados, contendo o corpo do jovem faraó. As paredes são decoradas com pinturas que retratam sua jornada rumo ao além, seguindo os rituais descritos no Livro dos Mortos.

A câmara do tesouro tinha como função proteger e sustentar o faraó na vida após a morte. Durante a minha visita, os artefatos originalmente depositados nesse espaço não estavam expostos na tumba. O que vi ali foi apenas o ambiente que, no passado, abrigou os vasos com os órgãos embalsamados, estátuas divinas e um delicado modelo dourado de barco, símbolo da travessia para o mundo dos deuses. Esses detalhes conheci com mais profundidade por meio de pesquisas e de documentários, especialmente The Search for Tutankhamun, que recomendo a quem quiser se aprofundar na descoberta e na história dessa tumba extraordinária. 

Embora a maior parte dos artefatos hoje esteja no Museu Egípcio do Cairo, a tumba ainda preserva o sarcófago e a múmia de Tutancâmon, exposta em uma urna de vidro para conservação. Estar ali, diante de um faraó que viveu há mais de três mil anos, foi uma experiência profundamente marcante, um contato direto com a grandiosidade e as crenças funerárias do Antigo Egito.

Depois de deixar o Vale dos Reis, segui em direção ao Templo de Hatshepsut, construído no século XV a.C., durante o seu reinado. Localizado na margem oeste do Rio Nilo, em Deir el-Bahari, o templo surge aos pés de um penhasco monumental, quase como se tivesse sido esculpido diretamente na rocha. A paisagem ao redor é silenciosa e imponente, reforçando a sensação de estar diante de um lugar pensado para a eternidade.

Ao chegar, utilizei novamente um carrinho elétrico, que facilitou o trajeto até a entrada do complexo. De perto, os terraços escalonados do templo chamam a atenção pela harmonia e pela simetria. Subi pela rampa central que conduz ao seu interior, um percurso que vai muito além de um simples acesso físico. Essa rampa possui um forte valor simbólico: representa a ascensão de Hatshepsut ao domínio divino e reforça sua ligação com os deuses, legitimando sua autoridade como faraó.

As paredes do templo são ricamente decoradas com relevos que narram a célebre expedição à Terra de Punt, um dos feitos comerciais mais notáveis de seu governo. Essas cenas revelam não apenas o poder econômico do Egito naquele período, mas também a habilidade política de Hatshepsut. Apesar de o templo ter sido severamente danificado após sua morte, principalmente por ordem de seu sucessor e enteado, Tutemés III, ele permanece como um dos exemplos mais impressionantes da arquitetura egípcia.

Logo na entrada, destacam-se as estátuas de Hatshepsut, que impõem respeito e solenidade. Representada em pé, com as mãos sobre os punhos e usando a coroa do Alto e do Baixo Egito, ela reafirma sua posição como soberana absoluta. Em uma sociedade onde o cargo de faraó era tradicionalmente masculino, Hatshepsut adotou atributos visuais associados aos homens, como a falsa barba, para legitimar seu reinado. Essas estátuas são um testemunho de sua força, de sua autoridade e de sua estratégia política, uma presença que atravessa os séculos e continua a se impor, mesmo após a morte.

Em seguida, segui para o último destino do dia: os Colossos de Mêmnon. Ao chegar, fui surpreendida pela aparente simplicidade do local. Diante de mim, apenas duas enormes estátuas de pedra se erguiam no meio da paisagem árida, e minha primeira reação foi me perguntar onde estava o restante do templo. A resposta veio poucos minutos depois, ao ler as placas informativas posicionadas à esquerda das estátuas, ali, compreendi a verdadeira dimensão histórica daquele lugar.

Os colossos estão na margem oeste do Rio Nilo, próximos a Luxor, e são os únicos remanescentes visíveis do vasto templo funerário do faraó Amenhotep III. Com cerca de 18 metros de altura, cada estátua o representa sentado, com as mãos apoiadas sobre os joelhos, em uma postura que transmite autoridade, equilíbrio e serenidade. Esculpidas em blocos de quartzito e arenito, foram erguidas para atuar como guardiãs do templo, marcando sua entrada monumental.

Com o passar dos séculos, terremotos devastaram a maior parte da estrutura do templo, que hoje já não existe. Ainda assim, os Colossos de Mêmnon resistiram ao tempo, preservando a imponência e a memória do faraó. Os danos são visíveis: os rostos foram desfigurados, e o corpo de uma das estátuas precisou ser remontado em grandes blocos após os abalos sísmicos. Atualmente, a parte traseira das esculturas não pode ser visitada, devido à fragilidade da estrutura e ao risco de novos danos.

O que, à primeira vista, me pareceu apenas "duas estátuas no meio do nada" revelou-se, na verdade, um poderoso testemunho da engenharia, da arte e da grandiosidade do Egito Antigo, silenciosas sentinelas de um templo que já não existe, mas cuja história ainda ecoa ali.

Após a visita aos Colossos de Mêmnon, atravessei a avenida para almoçar em um restaurante bem em frente ao antigo templo funerário de Amenhotep III, com vista direta para as estátuas. Não me lembro ao certo se o nome era Queens Restaurant ou The Queen, mas ele é fácil de identificar assim que se sai do sítio arqueológico.

As refeições no Egito costumam seguir um padrão: frango, kafta e, em alguns lugares, peixe. Era aquele tipo de cardápio previsível, confortável para quem viaja, mas que sempre deixa a curiosidade por algo diferente. Foi justamente essa expectativa que me levou a aceitar o "prato típico da casa". Curiosa e sempre aberta a provar sabores locais, aceitei. Quando a cumbuca chegou à mesa, percebi que se tratava de um picadinho, sem carne. Apenas nervos e gordura. Acabei me contentando com o arroz e a sopa que acompanhavam o prato. Não sou exigente para comer, pelo contrário, gosto de experimentar de tudo mas, dessa vez, realmente não deu. Por isso, não recomendo o "prato típico" e, sendo sincera, tampouco o restaurante.

Depois desse almoço decepcionante, o guia se despediu e o motorista assumiu o trajeto de volta ao navio, onde eu buscaria minha mala antes de seguir para o aeroporto, rumo ao Cairo. Antes, porém, pedi para fazer uma parada em uma loja de alabastro. No caminho, ouvi o motorista enviar um áudio pelo WhatsApp, em árabe, claro, e, poucos minutos depois, já estávamos em frente à loja Sekhmet 2 for Alabaster

Assim que desci da van, fui abordada por um vendedor simpático, que, para minha surpresa, já falava português. Na mesma hora, liguei os pontos e associei o áudio enviado pelo motorista àquela recepção tão bem ensaiada. Em seguida, ele iniciou uma breve demonstração do processo de fabricação das peças, quase um pequeno espetáculo cuidadosamente encenado para os turistas. Bastaram poucos minutos para eu imaginar que os preços, assim como a encenação, não seriam nada modestos.

Após a demonstração, fui conduzida ao interior da loja, onde as peças realmente impressionavam. Tudo era bonito, bem acabado, cuidadosamente disposto para encantar, e funcionava. Gostei de um pote de alabastro para velas e perguntei o preço. O vendedor respondeu que "o valor era ele", explicando que só revelaria o preço depois que eu escolhesse a peça. O primeiro valor foi de 65 dólares. Depois de alguma negociação, fechei por 30. Naquele momento, achei justo e saí convencida de estar levando uma peça autêntica.

Essa certeza, no entanto, não durou até o fim da viagem. No último dia, ao visitar o mercado de Khan el-Khalili, encontrei exatamente o mesmo pote, mesmo formato, mesma textura, mesmo acabamento, por 156 EGP, algo em torno de R$ 20. Foi ali, diante daquela coincidência impossível de ignorar, que entendi melhor como funcionam certas "experiências autênticas" cuidadosamente desenhadas para turistas.

De volta ao navio para pegar a mala, fui recebida por outro guia, que ficou responsável por me acompanhar até o jantar antes de seguirmos para o aeroporto de Luxor. O jantar no Host House foi uma grata surpresa e, de certa forma, um alívio depois do dia intenso: comida deliciosa, uma taça de vinho tinto egípcio, ambiente relaxante e acolhedor, além de um atendimento impecável. Esse, sim, recomendo sem hesitar.


DIA 7 (23/02):

 MUSEU DO CAIRO - BAIRRO COPTA - MESQUITA DE ALABASTRO - MERCADO DE KHAN EL KALILI

Saí do Hotel Regency, no Cairo, por volta das 8h30. Na recepção, a guia já me aguardava, pronta para dar início a mais um dia intenso. Nosso primeiro destino seria o Museu Egípcio do Cairo. Diante da imensidão do acervo e sabendo que ainda teríamos muitos outros lugares para visitar ao longo do dia, ela sugeriu que eu me concentrasse apenas nas peças mais emblemáticas. Era a melhor forma de aproveitar a visita sem comprometer o restante do roteiro.

Inaugurado em 1902, o museu abriga a maior coleção de artefatos do Egito Antigo do mundo. São mais de 120 mil peças reunidas ao longo de mais de um século: estátuas monumentais, joias delicadas, papiros, sarcófagos, múmias e, claro, a icônica máscara mortuária de Tutancâmon. Apesar de sua importância histórica inestimável, o museu carrega marcas do tempo, salas apertadas, organização caótica, poucas informações e climatização insuficiente para a preservação das relíquias. Com a inauguração do Grande Museu Egípcio, parte do acervo foi transferida, mas o antigo museu ainda guarda peças fundamentais da civilização faraônica. Imperfeito, sim, mas absolutamente indispensável.

Logo ao entrar, fui recebida pela imponente estátua de Ramsés II. Ali, parada no centro do salão, ela parecia impor silêncio. A postura ereta, o porte monumental e os traços idealizados traduzem exatamente o que Ramsés II representava: poder, autoridade e a ambição de eternidade de um faraó que se via quase divino.

Poucos passos adiante, o impacto foi de outra natureza. Diante da chamada "Múmia do Homem Desconhecido", ou "Múmia do Homem que Grita", senti um desconforto difícil de ignorar. A boca entreaberta, o rosto congelado em uma expressão de agonia, sugerem uma morte violenta e abrupta. Diferente das demais, sua mumificação foge aos rituais tradicionais do Egito Antigo, o que só aumenta o mistério em torno de sua identidade e destino. Não era apenas um corpo preservado pelo tempo, era um enigma silencioso, ainda sem respostas.

Enquanto avançava pelas salas do museu, fui surpreendida por uma pequena estátua de Quéops. O detalhe chama atenção justamente por sua raridade: o faraó não gostava de ter sua imagem representada em esculturas. Sentado em um trono, sua figura quase discreta contrasta de forma curiosa com a grandiosidade da pirâmide monumental que eternizou seu nome. Diante dela, é impossível não refletir sobre como o poder, às vezes, se manifesta mais pela obra do que pela imagem.

Logo depois, encontrei a imponente estátua de Quéfren, descoberta em uma cova sob seu templo em Gizé. Foi ele o faraó responsável pela construção da segunda pirâmide de Gizé e da Grande Esfinge. Esculpida em diorito (uma pedra dura extraída de Tushki, próximo a Abu Simbel) a estátua carrega em si a extensão do poder de Quéfren, que alcançava até o sul do Egito. A mão esquerda apoiada sobre a perna transmite estabilidade e controle, uma postura recorrente nas representações faraônicas, símbolo de firmeza e domínio. Já a mão direita, posicionada de forma distinta, sugere autoridade e comando, equilibrando força e ordem. Ali, diante daquela figura austera e silenciosa, Quéfren se apresenta não apenas como um governante terreno, mas como um soberano investido de poder divino.

Mais adiante, fui atraída pela tríade do Rei Miquerinos. A composição é poderosa e simbólica: o faraó aparece em pé, firme, ladeado por duas figuras femininas. À sua direita está a deusa Hathor, identificável pelo disco solar entre os chifres de vaca, divindade associada à fertilidade, à proteção e à renovação. À esquerda, surgem as personificações das províncias do Egito, reconhecíveis pelos hieróglifos acima de suas cabeças. Miquerinos, usando a coroa branca do Alto Egito e a saia shendyt, se apresenta como um soberano legitimado tanto pelo poder divino quanto pelo território que governa. A cena expressa seu desejo de compartilhar da regeneração e da vida eterna concedidas por Hathor.

Seguindo pelo museu, encontrei a falsa porta de Hesesi. No Egito Antigo, essas portas não eram simples elementos decorativos: funcionavam como passagens simbólicas entre o mundo dos vivos e o além. Acreditava-se que, por ali, o espírito do falecido podia transitar para receber oferendas e manter sua existência após a morte. Diferente de passagens falsas usadas para confundir saqueadores, essa estrutura tinha um propósito exclusivamente ritual. A solidez da peça e a riqueza dos hieróglifos reforçam a importância da vida após a morte na mentalidade egípcia.

Mais adiante, deparei-me com o Escriba sentado. Sua postura relaxada, o olhar atento e a expressão concentrada revelam a importância dos escribas em uma civilização onde a escrita era poder. Diante daquela figura, era fácil entender por que esses homens eram tão respeitados: eram eles os guardiões da memória, da administração e da história do Egito.

Poucos passos depois, fui novamente surpreendida por uma figura humana com olhos de quartzo. O brilho intenso do olhar parecia acompanhar cada movimento ao redor, criando uma sensação quase desconcertante, como se aquela estátua estivesse consciente da nossa presença.

Por fim, a guia me conduziu até o rosto esculpido da Rainha Hatshepsut. A expressão era firme e serena ao mesmo tempo. Ali estava a imagem de uma mulher que rompeu as convenções de seu tempo ao governar como faraó. Seus traços equilibram delicadeza e autoridade, traduzindo a singularidade de seu reinado e seu lugar excepcional na história do Egito Antigo.

Ao subir as escadarias do museu, fui sendo lentamente absorvida pelos papiros originais que revestiam as paredes. As inscrições, delicadas e precisas, pareciam sussurrar fragmentos de sabedoria antiga, contando histórias de um Egito distante no tempo, mas ainda pulsante.

Em seguida, cheguei à sala dedicada a Tutancâmon. A fila era longa, mas a expectativa só aumentava a cada passo. Ali dentro, não era permitido fotografar, uma restrição que, curiosamente, tornava a experiência ainda mais solene. Diante de mim, o sarcófago dourado do jovem faraó impunha respeito. Cercado por objetos pessoais e artefatos funerários, aquele espaço não era apenas uma exposição, mas um mergulho direto na história, quase íntimo, de um dos nomes mais emblemáticos do Egito Antigo.

Mais adiante, havia o Decreto de Canopo, um documento de importância extraordinária. Datado de 238 a.C., durante o reinado de Ptolomeu III, o texto aparece gravado em três línguas: hieróglifos, demótico e grego antigo. Assim como a Pedra de Roseta, ele teve papel fundamental na decifração da escrita egípcia. Mas seu alcance vai além: o decreto propunha uma reforma no calendário, introduzindo os anos bissextos, um avanço notável para o conhecimento astronômico da época. Ao mesmo tempo, refletia a convivência, e a fusão, entre a cultura egípcia e o domínio grego da dinastia ptolemaica.

A visita se encerrou diante das grandes estátuas sentadas do Rei Amenófis III, ao lado de sua esposa e de suas três filhas. A imponência das figuras transmitia uma sensação clara de poder e estabilidade, mas também de harmonia familiar, um retrato silencioso de uma das fases mais prósperas do Egito Antigo.

Depois da visita ao museu, segui para o bairro Copta, uma das áreas mais antigas do Cairo. Ali, o cristianismo copta, uma das vertentes mais antigas do cristianismo, está profundamente enraizado no cotidiano, na arquitetura e no silêncio dos espaços sagrados.

A primeira parada foi na chamada Cavern Church, a Igreja da Caverna. Construída dentro da própria rocha, o templo impressiona não pela grandiosidade, mas pela atmosfera. O interior é simples e acolhedor, com paredes de tijolos aparentes que evocam a humildade e a devoção dos primeiros cristãos. Há algo de muito autêntico naquele espaço: um equilíbrio entre funcionalidade e espiritualidade, onde o tempo parece desacelerar.

Em seguida, visitei a Sinagoga Ben Ezra, localizada no coração do bairro Copta. O lugar carrega um simbolismo especial, refletindo séculos de convivência entre diferentes tradições religiosas no Egito. Uma das histórias mais marcantes, contada pela guia, remonta ao período medieval, quando a sinagoga foi utilizada como local de guarda de manuscritos e pergaminhos sagrados. No século XIX, muitos desses textos, incluindo documentos judaicos de grande relevância histórica, foram encontrados dentro de um baú no interior do edifício, transformando a Ben Ezra em uma referência fundamental para o estudo da história judaica.

Hoje, a sinagoga permanece como um marco do patrimônio judaico no Egito e como testemunho silencioso da diversidade cultural e religiosa que sempre caracterizou o bairro Copta. Mais do que um ponto turístico, é um convite a compreender o passado multicultural do Cairo: complexo, entrelaçado e surpreendentemente harmonioso.

Ao concluir o passeio pelo bairro Copta, segui em direção à Mesquita de Alabastro, também conhecida como Mesquita de Mohammed Ali. Localizada no alto da Cidadela de Saladino, ela se impõe não apenas pela arquitetura, mas também pela vista panorâmica do Cairo: ampla, intensa e cheia de contrastes.

A construção teve início em 1830 e foi concluída em 1848 por Mohammed Ali. Inspirada na Mesquita Azul de Istambul, a edificação revela claramente a influência otomana na arquitetura egípcia. O nome "Mesquita de Alabastro" vem do revestimento que cobre tanto o interior quanto o exterior, criando uma presença elegante e monumental, visível à distância.

Antes de entrar, foi necessário adquirir por 10 EGP os protetores de calçados, um cuidado comum em locais religiosos para preservar o espaço. Em seguida, atravessei o pátio interno, onde um detalhe curioso chama atenção: o grande relógio oferecido pelo rei da França, Luís Filipe, em 1836, como parte da troca pelo obelisco que hoje está na Praça da Concórdia, em Paris. Um presente simbólico, e irônico, já que o relógio nunca funcionou corretamente.

No interior da mesquita, a sensação é de grandiosidade. O salão central é amplo e iluminado, coroado por enormes cúpulas ornamentadas que conduzem o olhar para cima. Um lustre de cristal imponente, também um presente da França, domina o espaço e reforça a atmosfera solene. Ali se encontra ainda o túmulo de Mohammed Ali, cercado por mármores brancos que se destacam pela sobriedade e elegância.

No fim do dia, segui para o Mercado de Khan el-Khalili, uma parada inevitável no coração do Cairo. Caminhar por ali é se perder em um labirinto de ruas estreitas, tomadas por lojinhas cheias de movimento, aromas intensos e sons que se misturam o tempo todo. Um dos mercados mais antigos e tradicionais da cidade, o Khan el-Khalili reúne de tudo um pouco: artesanato egípcio, especiarias, tecidos e inúmeros objetos que disputam a atenção a cada passo.

Negociar faz parte da experiência, quase um ritual. Aprendi rápido que o preço inicial raramente é o final, e oferecer cerca de um terço do valor pedido costuma ser um bom ponto de partida. Nos arredores do mercado, a Mesquita de Al-Hussein se impõe como um importante marco religioso e cultural, completando o cenário e reforçando a sensação de estar em um lugar onde história e cotidiano caminham juntos.

Antes de retornar ao hotel, fiz uma última parada em um dos restaurantes mais tradicionais e populares do Cairo: o Koshary Abou Tarek. Ali, provei o koshary, prato nacional egípcio que combina arroz, macarrão, lentilhas, cebolas fritas e molho de tomate, geralmente acompanhado de alho e pimenta. Simples à primeira vista, mas surpreendentemente saboroso, o koshary traduz bem a essência da culinária local: acessível, intensa e cheia de personalidade.


DIA 8 (24/02):

GRANDE MUSEU EGÍPCIO (GEM)

Nas últimas horas no Cairo, pouco antes de embarcar de volta ao Brasil, decidi visitar o Grande Museu Egípcio por conta própria. O museu não fazia parte da programação oficial, mas parecia impossível ir embora sem conhecê-lo. Negociei um late check-out no hotel e segui em direção ao GEM. Como a distância era de pouco mais de um quilômetro, optei por ir a pé, uma escolha que rapidamente se transformou em mais uma experiência intensa do Cairo.

Caminhar pela cidade foi um exercício constante de atenção. As calçadas estreitas se misturavam a obras improvisadas, buzinas ecoavam sem cessar e o trânsito parecia desafiar qualquer lógica previsível. Atravessar as ruas exigia agilidade e coragem: pedestres e carros dividiam o espaço em uma coreografia caótica que, curiosamente, funcionava. O Cairo pulsa assim, vibrante, exaustivo e fascinante, onde o antigo e o moderno coexistem em um movimento contínuo.

Depois de enfrentar esse percurso, finalmente cheguei ao Grande Museu Egípcio. Comprei o ingresso na bilheteria por 1.200 EGP e, já do lado de fora, a imponência da arquitetura anunciava a grandiosidade do que estava por vir. Localizado próximo às Pirâmides de Gizé, o GEM é um dos maiores e mais modernos museus arqueológicos do mundo, construído para abrigar e preservar a mais completa coleção de artefatos do Egito Antigo.

Lá dentro, o acervo impressiona pela escala e pela organização. Estátuas monumentais, papiros, relíquias de templos e objetos funerários se distribuem de forma clara e cronológica, permitindo acompanhar a evolução da civilização egípcia ao longo dos milênios. A exposição é organizada por grandes períodos históricos: do Pré-Dinástico e Antigo Reino, quando surgem as primeiras pirâmides e o Estado egípcio se consolida; passando pelo Médio Reino, marcado por instabilidades e posteriores avanços artísticos; até o Novo Reino, auge do poder egípcio, com faraós icônicos como Ramsés II e Tutancâmon. A sequência segue pelo Terceiro Período Intermediário, tempos de fragmentação política e domínios regionais que transformaram a sociedade egípcia, seguidos pelo Período Tardio, quando o país recupera certa estabilidade, promove reformas administrativas e se aproxima cada vez mais de outras civilizações do Mediterrâneo. Por fim, o Período Greco-Romano revela um Egito cosmopolita, onde tradições locais se misturam à cultura grega e romana, e onde o antigo legado faraônico encontra novas formas de expressão em templos, arte e práticas culturais.

Essa divisão torna a visita intuitiva e envolvente. Mais do que observar peças antigas, tive a sensação de percorrer uma linha do tempo viva, entendendo como política, religião, arte e poder se transformaram ao longo de milhares de anos. Foi a despedida perfeita do Cairo: intensa, grandiosa e profundamente marcante!

A visita durou cerca de 2h. De volta ao hotel, recolhi minhas malas e segui com o guia Mário, o mesmo que me recebeu no início da viagem, diretamente para o aeroporto. Ali, entre despedidas e olhares ainda cheios de imagens recentes, deixei para trás um país extraordinário.

Encerrar essa jornada pelo Egito foi como despertar de um sonho tecido por história, cultura e grandiosidade. Caminhei por templos monumentais, contemplei paisagens que parecem atravessar o tempo e senti, a cada passo, o peso e a beleza de um legado milenar. O Egito pulsa em um equilíbrio delicado entre passado e presente, preservando tradições profundas enquanto segue vivo e intenso. A religiosidade, tão presente no cotidiano, se manifesta na devoção das pessoas e nos monumentos sagrados que resistem aos séculos. Parti levando muito mais do que lembranças de lugares inesquecíveis, levei comigo a essência de uma terra que respira história.